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Em Vão

Vastidão, ao relento e em vão,
Soturnamente descrevo-lhe o céu.
Suas cores mesclando o sabor das verdades,
Desprendendo suas virtudes,
Sufocando minhas dores.
As águas banhando de azul
O negro das pedras.
Banhando de calor
As brisas nas velas.
Os mistérios do marulhar
Tocando-me os ouvidos,
Molhando-me, ao relento e em vão.
Soturnamente descrevo-me aos céus.
Distantes, erráticos, aos hilários açoites,
Às noites cardiovasculares
Minando, massacrando a terra,
A areia da praia deserta.
Sem perceber desci da minha solidão.
Senti as pedras pontiagudas,
Amareladas, fechando-me o cerco,
Atirando-me contra a escuridão
Esverdeada dos corais celestes.
Percebi que gostaria de encerrar
Numa abóbada, o brilho de uma lágrima.
Com ela te colorir o ventre,
Amando-te ao relento e em vão.
Ter asas violetas pra te levar
Num orgasmo intenso.
Sensificando-a, vastidão uniforme,
Minguante. – Me socorra
Ao relento e em vão.

Madrugada sangue azul

Madrugada sangue azul
Estrelas de prata desejo desenho
Cidade desfalece calma e nua
Me imagino ao lado dela
Suas vias tato melodia
Piano sax fumaça solidão
Me clamando pra rua
Noturnos dilemas majestade
Franco silêncio criança sê-lo
Me desejo você então
Vento vasto rapto relapso
Decisões secretas santas visto
Me incauto um elo
Penetro escassa caça revisto
Devasta olhos na vidraça telúrica
Me ama eu insisto
Ramalhete púrpura cura escura
Espuma fervente intacta
Noite casta luzes vítreas
Me viva vida sede impúdica
Me seja

Alguns trechos dessa poesia acabaram sendo utilizados na música ME SEJA da banda Zorazzero e gravada no seu disco. Eu toquei por alguns anos nessa banda no período que morei em São Paulo, depois comentarei a respeito.

Aurora

Um estilhaço de esperança, avança e se eleva,
Tateando pelas trevas, fadas e fatias,
Lembranças e topografias.
Reluziam aos montes, torturas sinalizantes,
Distinguindo os vilões, sortudos anseios…
Ciências divinas. Descreio…
Em comemorações na surdina,
Simples receio ou recreio.
Crio-me um sol, um velho com um anzol
E seus pastos servíveis.
Pasmôdicos miscelânicos,
Assoalhos condensados por passadas e instantes.
Crepúsculos titânicos,
Invenções trituradas por passados e passantes.
Violentando-se um farol onde pousava milagres
Descrevendo ritualítico seu oceânico atol,
Sua dança boreal, seu segredo paternal
Que se eleva e avança
Sem mais um estilhaço de esperança.

Talvez sábado

Me escurecendo uma tarde de sábado
Compreendi que o mais profundo
dos caminhos não leva a nada.
A não ser, é claro, ao seu breu cigano
em tom condescendente com sua própria apatia.
Se procurarmos um pouco mais adiante,
encontraremos alguns rumos que levam a rumo nenhum,
a lugar comum.
Podemos parar pra dar corda no relógio
apenas por um par de segundos.
Seremos os senhores no tempo
sem nos darmos conta que estamos eternamente
possuídos pela densidade liquidificada
dos segundos nos caminhos.
Intrigados, continuaremos a fragmentação
Sintomática das razões.
Agora já perdemos o fio.
Decisões concretas em pequenas prateleiras
nos serão entregues lapidadas.
Fica fácil, já quebrou a corda do relógio mesmo.
Restou-nos apenas à tarde, um sábado…

Velhas Gravuras

Deixei as marcas de fora.
Queria compreender os vultos
Dançando em velhas gravuras.
Sonatas distantes.
Quebrei o primeiro indício,
Lampejos incertos,
Os desejos tão pertos.
Tão cheios de sentidos…
Sem sentidos,
Indecisos e decisivos.
Escolhi um segredo
E tomei-o com medo.
As frágeis asas sob meus olhos,
Intrépidas. O início.
Inventei luas e facetas
Secando o último suplício,
Sem, contudo, evoluir o evoluído.
Velhas figuras,
Desvencilhar-me das caricaturas.
Queria compreender os vultos
Sorrindo em novas gravuras.