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A Minha Sede

A minha sede é por palavras.
É pelo impossível que está por vir.
É uma loucura que emudece,
Quando o mundo de qualquer um envelhece.

Palavras. Quais Preciso?
Todas que me são entregues
Pelas mentes e bocas tortas.
Quando o mundo de qualquer um importa.

A minha sede vai e vem
Como uma enchurrada ou um trem,
Mas a beleza em cada ver faz bem
Quando o mundo de qualquer um se tem.

Palavras, as quais preciso
São ditas bem perto a olho nú
E matam a sede que eu tenho.
Quando do mundo de qualquer um eu venho.

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Em Vão

Vastidão, ao relento e em vão,
Soturnamente descrevo-lhe o céu.
Suas cores mesclando o sabor das verdades,
Desprendendo suas virtudes,
Sufocando minhas dores.
As águas banhando de azul
O negro das pedras.
Banhando de calor
As brisas nas velas.
Os mistérios do marulhar
Tocando-me os ouvidos,
Molhando-me, ao relento e em vão.
Soturnamente descrevo-me aos céus.
Distantes, erráticos, aos hilários açoites,
Às noites cardiovasculares
Minando, massacrando a terra,
A areia da praia deserta.
Sem perceber desci da minha solidão.
Senti as pedras pontiagudas,
Amareladas, fechando-me o cerco,
Atirando-me contra a escuridão
Esverdeada dos corais celestes.
Percebi que gostaria de encerrar
Numa abóbada, o brilho de uma lágrima.
Com ela te colorir o ventre,
Amando-te ao relento e em vão.
Ter asas violetas pra te levar
Num orgasmo intenso.
Sensificando-a, vastidão uniforme,
Minguante. – Me socorra
Ao relento e em vão.

Meu

Um destino sopra-me uma direção oculta,
Desfalece e sepulta… Sortilégios.
Servinílica palavra, entristece,
Emudece, umedece.
Alma minha que mistério és?!
Sonhos e critérios, decisões em silêncios,
Silêncios de seduções.
Pares quase imperfeitos.
Vencida quando vence,
Em lágrimas sangradas de minutos vazios
Percussivas vibrações,
Solidão que tanto enforca como edifica.
Tal qual fórmula empírica, onírica,
Irradia anseios e soluções. Medos e tesão.
Mistério meu, vagueia embriagado,
Embravecido e adocicado.
Adonisando-me uma distância,
Branda, em celebrações e serpentinas.
Cristalinas cativantes galgando, insinuantes.
Argamassando em colméias quase secretas
Esse meu desencanto,
Essa inibição que enrubesce.
Sinfonia em tom menor
Prioriza em tablóides leves ditaduras
Ao meu canto impõem, expõem e forçam
Pequenos choque lúdicos, coração e morte.
Alma frágil e forte!
Esse meu mistério porte.

Morre lentamente

Resolvi postar Pablo Neruda, poeta chileno, porque esse texto abaixo diz muita coisa pra mim e acredito, pra qualquer um.

“Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente…”

Correção: – Minha amiga Marina me mandou uma correção aqui. A verdadeira autora é uma brasileira chamada Martha Medeiros. Obrigado Marina

Aurora

Um estilhaço de esperança, avança e se eleva,
Tateando pelas trevas, fadas e fatias,
Lembranças e topografias.
Reluziam aos montes, torturas sinalizantes,
Distinguindo os vilões, sortudos anseios…
Ciências divinas. Descreio…
Em comemorações na surdina,
Simples receio ou recreio.
Crio-me um sol, um velho com um anzol
E seus pastos servíveis.
Pasmôdicos miscelânicos,
Assoalhos condensados por passadas e instantes.
Crepúsculos titânicos,
Invenções trituradas por passados e passantes.
Violentando-se um farol onde pousava milagres
Descrevendo ritualítico seu oceânico atol,
Sua dança boreal, seu segredo paternal
Que se eleva e avança
Sem mais um estilhaço de esperança.

Talvez sábado

Me escurecendo uma tarde de sábado
Compreendi que o mais profundo
dos caminhos não leva a nada.
A não ser, é claro, ao seu breu cigano
em tom condescendente com sua própria apatia.
Se procurarmos um pouco mais adiante,
encontraremos alguns rumos que levam a rumo nenhum,
a lugar comum.
Podemos parar pra dar corda no relógio
apenas por um par de segundos.
Seremos os senhores no tempo
sem nos darmos conta que estamos eternamente
possuídos pela densidade liquidificada
dos segundos nos caminhos.
Intrigados, continuaremos a fragmentação
Sintomática das razões.
Agora já perdemos o fio.
Decisões concretas em pequenas prateleiras
nos serão entregues lapidadas.
Fica fácil, já quebrou a corda do relógio mesmo.
Restou-nos apenas à tarde, um sábado…

Velhas Gravuras

Deixei as marcas de fora.
Queria compreender os vultos
Dançando em velhas gravuras.
Sonatas distantes.
Quebrei o primeiro indício,
Lampejos incertos,
Os desejos tão pertos.
Tão cheios de sentidos…
Sem sentidos,
Indecisos e decisivos.
Escolhi um segredo
E tomei-o com medo.
As frágeis asas sob meus olhos,
Intrépidas. O início.
Inventei luas e facetas
Secando o último suplício,
Sem, contudo, evoluir o evoluído.
Velhas figuras,
Desvencilhar-me das caricaturas.
Queria compreender os vultos
Sorrindo em novas gravuras.