A História do Rock em 13 capítulos

Blues: A origem

O tão famigerado Rock and Roll deu o ar da graça nos Estados Unidos no final dos anos 1940 e início da década de 1950. Era o som dos subúrbios começando a atiçar a juventude americana, negra e branca. E assim, o Rock se espalhou como uma verdadeira praga pelo resto do mundo a uma velocidade assustadora. No início as críticas eram, na maioria, negativas, e existia o estigma de incentivar o satanismo, o sexo e o uso de drogas. Suas origens imediatas remontam ao Blues, na verdade, à mistura do Blues com o Country e Rhythm and Blues (derivado do próprio Blues e do Jazz), além de algumas influências de outros estilos como a Folk Music e o Boogie Woogie (também derivado do Blues e Jazz). Mas, essencialmente, o Blues é a raiz do Rock e podemos citá-lo como o pai do Rock.

O Blues como ele é conhecido hoje, teve sua origem na África e migrou para os Estados Unidos da América através dos escravos. O Blues sempre esteve profundamente ligado à cultura afro-americana, especialmente aquela oriunda do sul dos Estados Unidos (Alabama, Mississipi, Louisiana e Geórgia), dos escravos das plantações de algodão que usavam o canto para embalar suas intermináveis e sofridas jornadas de trabalho. Porém, o conceito de Blues, só se tornou conhecido após o término da Guerra Civil quando sua essência passou a ser como um meio de descrever o estado de espírito da população afro-americana. Era um modo mais pessoal e melancólico de expressar seus sofrimentos, angústias e tristezas. A cena, que acabou por tornar-se típica nas plantações do delta do Mississipi, era a legião de negros, trabalhando de forma desgastante, sobre o embalo das canções, os Blues.

Em 1912, as primeiras músicas surgiram: Dallas Blues de Hart Wand e logo em seguida The Memphis Blues de W.C. Handy. Mas, o primeiro músico popular e específico de blues foi Charley Patton em meados da década de 20. Posteriormente, na mesma época, surgiram nomes como os de Son House, Willie Brown, Leroy Carr, Bo Carter, Blind Willie Johnson, entre outros. No início, a maioria das canções eram temas tradicionais de conhecimento geral como Catfish Blues e John The Revelator. Porém, na década de 30 surgiu o nome mais idolatrado do Blues: Robert Johnson. Ele teve uma vida curta e gravou pouquíssimas músicas entre 1936 e 1937, mesmo assim é considerado o primeiro grande clássico do Blues. O Delta Blues se destacava e o Blues dividia-se entre o Blues Rural e o Blues Urbano. Algumas mulheres também se destacaram como Ma Rainey e Bessie Smith, a grande voz feminina do Blues. A fusão com o Jazz trouxe o Boogie Woogie e rolavam as Big Band Blues.
Com o advento da eletrificação da guitarra e dos outros instrumentos no final dos anos 30, o Blues ganhou uma força tremenda e surgiu o formato tradicional para uma banda de Blues e posteriormente de Rock: o quarteto centrado na guitarra e acompanhado de voz, baixo e bateria. É claro que além desses, outros instrumentos como a gaita e o piano tiveram papéis extremamente importantes. T-Bone Walker foi o primeiro guitar hero por assim dizer e recai sobre ele grande parte da culpa da proliferação do Blues Elétrico no início dos anos 40. Após a segunda guerra o Blues ganhou sub gêneros regionais importantes até hoje como Chicago Blues, Memphis Blues, Detroit Blues, Texas Blues e New Orleans Blues e, dessa época, muitos nomes que influeciaram e influenciam o Rock até hoje são Muddy Waters, Willie Dixon, B.B. King, John Lee Hooker, Howlin’ Wolf, Jimmy Reed, Little Water, Sonny Boy Wiliiamson.
Nesse período, o filho pródigo Rock’n’Roll iniciava sua carreira para se tornar o maior e mais influente estilo musical desde então, seguindo paralelamente e, desenvolvendo novos estilos e sub gêneros até os dias de hoje. Sofrendo constantes influências do Blues com o passar dos anos, mas isso fica pra os próximos capítulos.

Voltando ao Blues, artistas ingleses começaram a reparar e sofrer influências do Blues e os anos 60 trouxe novos artistas, tanto americanos (Taj Mahal, Buddy Guy, Otis Rush, Freedy King, Magic Slim, etc.) quanto ingleses (Alexis Korner, Cyrill Davies, Albert Lee, John Mayal, Yardbirds, etc.). Artistas antigos ganharam notoriedade e foram reverenciados pelos rockeiros de plantão como Jimmy Page, Eric Clapton, Jeff Beck, Ronnie Wood, Jimi Hendrix, The Rolling Stone, The Who, Janis Joplin, os irmãos Edgar Winter e Johnny Winter e muitos mais. Um derivado direto e mais pesado surgiu, o Blues Rock. Algumas bandas e artistas tiveram grande destaque como: Canned Heat, Cream, The Allman Brothers, ZZ Top. Todos eles gravando músicas dos heróis do Blues. Mas do meio dos anos 70 em diante e até o início dos anos 80 o Blues passou uma fase de ostracismo até surgir o músico que, talvez tenha sido, a última grande estrela do Blues: Stevie Ray Vaughan. Ele gravou os antigos clássicos e compôs algumas obras primas no seu estilo próprio, vigoroso e virtuoso. A partir de então, novos músicos de todas as partes do mundo se identificaram com o Blues, trazendo um fôlego renovado e mostrando grandes artistas como Jeff Healey, Gary Moore, John Mayer, Johnny Lang, Derek Trucks, Chris Duarte, Larry McCray, Coco Montoya, Kenny Wayne Shepherd, Robert Cray, Robben Ford, Joe Bonamassa entre outros. Novamente o Blues assume seu lugar de destaque como o pai do Rock.

Do Rockabilly à Surf Music: Uma revolução na música

Como havíamos escrito anteriormente, o Rock and Roll surgiu entre os anos 40 e 50 nos EUA. O Blues estava em plena atividade e se fortalecendo comercialmente, a guitarra elétrica tornava-se a grande estrela e, se o Blues era o pai, a guitarra elétrica certamente era a mãe do Rock. Esse filho pródigo surgiu, berrando a plenos pulmões para o mundo que tinha chegado pra ficar e sacudiria todas as bases da cultura americana e mundial. Uma das primeiras aparições do termo Rock and Roll foi em 1937 na música Rock It For Me, gravada por Chick Webb e Ella Fitzgerald. Essa canção incluía o verso “So won’t you satisfy my soul with the rock and roll (Então você vai satisfazer a minha alma com o rock and roll)”, é preciso citar que a frase “rockin and rolling” era uma gíria negra que remete a dançar ou fazer sexo e apareceu pela primeira vez em 1922 numa canção de Trixie Smith, sendo assim ainda não tinha a conotação de estilo musical. Na cidade de Cleveland (Ohio), o discotecário (DJ da época) Alan Freed, em 1951, começou a tocar essa mistura para uma platéia multi-racial e, a ele, é creditada a primeira utilização da expressão Rock and Roll para descrever a música, o estilo musical. Apesar desse fato, a palavra Rock era usada como metáfora para os verbos “to shake up, to disturb ou to incite” que significam, respectivamente, sacudir, perturbar e incitar. Isso, nada mais é do que o sentido mais puro do Rock and Roll: fazer a pessoa dançar, pensar e/ou se rebelar.

O Rock and Roll bebeu da fonte de diversos gêneros pra criar sua personalidade ímpar e definitiva, do Rhythm and Blues ao Country, passando pelo Gospel, Folk e o Blues elétrico. Um estilo de Blues em particular teve grande importância na sua estrutura, foi o Jump Blues que se desenvolveu principalmente na costa oeste americana e usava riffs de guitarra, batidas proeminentes e letras gritadas. Era época da segunda grande guerra mundial e as orquestras perdiam espaço para as bandas menores que usavam apenas baixo, guitarra, piano e bateria.

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Elvis Presley

Por causa do processo evolucionário do Rock and Roll, não existe uma gravação específica considerada a primeira. Existem algumas delas concorrendo a esse posto, são elas: Rock Awhile de Goree Carter (1949), Rock the Joint de Jimmy Preston (1949) também gravada por Bill Haley & His Comets em 1952, Rocket 88 de Jackie Preston & His Delta Cats (na verdade era Ike Turner e sua banda The Kings of Rhythm) gravada por Sam Phillips em 1951 e a mais reconhecida pela maioria Rock Around The Clock de Bill Haley & His Comets em 1955. Acredito que o marco inicial foi That’s All Right (Mama) gravada por Elvis Presley em 1954. É fundamental citar Chuck Berry como um dos grandes mestres do Rock and Roll. Chuck Berry transcreveu para a guitarra, a linha básica de duas notas do piano do Jump Blues, criando o que é instantaneamente reconhecido ao se ouvir, como a guitarra rock e, além disso, gravou o solo com guitarra distorcida (usando um pequeno amplificador valvulado para obter esse efeito) na clássica Maybellene de 1955, feito esse de grande importância para o Rock até hoje. Contundo, entre os primeiros guitarristas a usar a distorção e os tão populares power chords estão Guitar Slim, Willie Johnson e Pat Hare, todos bluseiros. Muitos artistas tornaram-se lendas como pioneiros do Rock and Roll e estão entre eles, além dos citados acima: Bo Diddley, Fats Domino, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Gene Vincent, Carl Perkins, Buddy Holly, Johnny Cash e tantos outros.

O Rock and Roll atravessou as fronteiras dos EUA e aportou na Inglaterra através de filmes como Rock Around The Clock que alavancou Bill Haley ao estrelato e ao topo das paradas britânicas em 55 e 56. Alguns músicos tocavam, amadoramente, estilos influenciados pelo Rock and Roll americano, como o Skiffle ou a Beat Music. Paralelamente, músicos ingleses se dedicavam ao blues com acento britânico como Cyril Davies e Alexis Korner e criavam uma cena de Blues na Inglaterra que, mais tarde, geraria grandes estrelas como John Mayall, The Yardbirds e outros mais. A indústria britânica atenta a isso produzia cópias desses discos de Rock and Roll americano e em 1958 surgiu o primeiro ídolo do Rock and Roll britânico, Cliff Richard. E as primeiras bandas começavam a proliferar no final dos anos 50 e início dos anos 60. Formas diferentes de Rock and Roll apareceram como o Doo Wop, que era basicamente grupos vocais cantando Rock and Roll, que influenciaram rapidamente outras formas musicais como a Surf Music ou Surf Rock, a Soul Music e, mais tarde, a Beat Music (similar britânico do Rock and Roll americano, incluindo aí The Beatles).

Jerry Lee Lewis!!!!
Jerry Lee Lewis
Dick Dale - King Of The Surf Guitar
Dick Dale

Em 1959, com a morte de Buddy Holly, Ritchie Valens e The Big Bopper em um acidente de avião, Elvis no exército, os escândalos de Jerry Lee Lewis e Chuck Berry, por se envolverem com menores adolescentes, Little Richard tornando-se pastor, o Rock and Roll fechava um ciclo e dava a impressão que iria sucumbir. Mas a Surf Music, nascida na Califórnia e que tinha nos temas vocais ou instrumentais sua grande força, mostrou um novo tipo de guitar hero na figura do lendário Dick Dale e deu uma vida nova ao Rock and Roll já não tão adolescente e artistas importantes e influentes para o Rock and Roll surgiram nesse estilo: Duane Eddy, Bel-Airs, The Chantays, The Trashmen, The Astronauts. Outro grande nome reverenciado até hoje é o do Beach Boys, provavelmente a maior banda de Surf Rock de todos os tempos e que gerou frutos para os anos vindouros.

Pra se ter uma idéia da importância do surgimento do Rock and Roll, anteriormente, a música era categorizada por raça, nacionalidade, localização, estilo, instrumentação, técnicas vocais e religião. A música nunca mais foi definida ou categorizada dessa forma. Com a popularidade e o sucesso comercial o Rock and Roll tornou-se de extrema importância para a indústria musical americana e, logo em seguida, para a indústria musical mundial. As inovações eram muitas na época. Por exemplo, o gravador multi-track (o primeiro se tratava de um gravador de 8 canais) surgiu em 1955, concebido e desenvolvido por Ross Snyder para a Ampex e comprado por um senhor chamado Les Paul (simplesmente o inventor da guitarra elétrica de corpo sólido, antes existiam as semi-acústicas, parecidas com violões) e usado para multiplicar os vocais e instrumentos (antes disso se gravava ao vivo em estéreo, se alguém errasse, tudo tinha que ser feito do princípio novamente). Também se desenvolveram os efeitos e as técnicas de tratamento eletrônico do som por pioneiros como o próprio Les Paul, Joe Meek e Phil Spector. A revolução havia não apenas começado como também se estabelecido.

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