Indelével Virtude

Quando o ranger dos dentes se torna mudo e reflete o estado de espírito do transeunte comum, fica fácil observar a solidão tão pungente. As cores, sempre puxadas para o cinza, transparecem algumas dessas características. O distanciamento, a palidez, algumas vezes, a sordidez, outras, a frágil educação que parece fingida ou forçada. Sempre tão presentes, como barreiras que impedem que o calor em cores vivas estampe um sorriso franco. Não se sentir um intruso é complicado. Mas faz parte do íntimo de alguns, não se deixar levar, romper barreiras e, não apenas achar seu lugar ao sol, como destacar-se e até fortificar-se.

Em plena Av. Paulista, entrando em uma banca de jornal, passa-se o diálogo:
– Senhor, quanto?
– Por Favor! (um tanto carrancudo)
– Ahh?
– Por favor. É uma questão de educação (mais carrancudo ainda)
– Sinto muito. Por favor, quanto custa? (com um sorriso no rosto)
– Cinquenta reais
– Vixe, caro demais. Obrigado.
– Pelo menos disse obrigado, tinha que ser do norte.
Ao sair, com aquela última frase na cabeça, o jovem volta e diz, dirigindo-se diretamente ao senhor carrancudo.
– A educação pode transparecer no sorriso ou no calor das palavras, bem como o respeito. Se o senhor se incomoda tanto, deveria sorrir mais e ser mais simpático. Não é apenas uma questão de educação mas de criação também. Não que a do senhor possa ter sido errada, quem sou pra afirmar isso, mas talvez essa cidade tenha lhe dado uma educação fria, de termos corretos e tão pouca simpatia e tão carregada de preconceito.
Ao sair o jovem dispara:
– Ah, é NOR-DES-TI-NO e com orgulho.